sexta-feira, 22 de junho de 2018

Rubem Alves escreve SOBRE A MORTE E O MORRER

Vale a pena ver de novo...
por Rubem Alves
Sobre a morte e o morrer

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.
Rubem Alves: tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

domingo, 17 de junho de 2018

Quem se importa?




Vale a pena rever...

QUEM SE IMPORTA é um documentário longa metragem sobre empreendedores sociais no Brasil e ao redor do mundo. Pessoas brilhantes, que criaram, cada qual, uma organização inovadora capaz de não só mudar a sociedade ao seu redor, mas também causar impacto social suficiente para que estas idéias possam virar políticas públicas aplicadas em várias partes do mundo. Um filme que, através de cada um de seus personagens, vasculha o mundo atrás de pessoas magníficas que oferecem simples soluções para as mais graves questões que nos afetam profundamente.

O filme conta com grandes nomes internacionais do Empreendedorismo Social como Muhammad Yunus (Nobel Paz 2006), Bill Drayton, Mary Gordon, entre outros.

Narração de RODRIGO SANTORO

COM Muhammad Yunus, Bill Drayton, Al Etmanski, Bart Weetjens, Dener Giovanini, Eugenio Scannavino Netto, Isaac Durojaiye, Jehane Noujaim, Joaquim Melo, Joaquín Leguía, John Mighton, Karen Tse, Mary Gordon, Oscar Rivas, Premal Shah, Rodrigo Baggio, Vera Cordeiro e Wellington Nogueira.

Direção de Fotografia CRISTIANO WIGGERS e DADO CARLIN Montagem ANDRÉ FINOTTI e RENATA TERRA Música Original ALEXANDRE GUERRA Som Direto CANTÍDIO COSTA, MIQUÉIAS, PEDRO MOREIRA e SAMUCA Edição de Som INPUT ARTE SONORA

Direção de Arte e Animação RENATO BATTAGLIA e SYLVAIN BARRÉ Animações, Artes e Gráficos BATTAGLIA FILMES e CITRONVACHE



sábado, 9 de junho de 2018

Sonhos encurtados

Sonhos encurtados 
(...) e ele parou, momentaneamente, sentado à mesa quando rebuscava em sua bolsa uma caneta e um caderno, absorvido pelos pensamentos, percebendo em meio às vozes, rebuliços e algazarras, aqueles jovens cheios de possibilidades, embrenhados nas alegrias do momento em que tudo é possível, onde os obstáculos são tão ínfimos que não aparecem nos lampejos das jovens mentes, e onde os horizontes são tão amplos que os olhos não têm onde acomodar-se. 

 Ali mesmo, inconscientemente mexendo em sua bolsa, ele sente que seus sonhos encurtaram, que seus horizontes de objetivos já não são mais tão amplos, ficaram reduzidos, esmagados pelo encolhimento do tempo de sua existência, que comprime as vontades, os desejos, os sonhos.

Tudo ficou reduzido, muito curto, muito ínfimo. Agonizado pela mente que o faz lembrar da sua juventude. Aos 70 anos, confinado no micro espaço de tempo do presente, ele se sente desalentado, percebendo a falta de algo; uma sensação de missão não cumprida o faz abandonar a busca pela caneta e o caderno; parado com uma das mãos dentro da bolsa, enquanto a outra segura a alça, ele mergulha no passado. 

Um passado no qual seus pais eram retirantes no Sertão Nordestino. Sua família, composta de quatro pessoas e um cão, na década de trinta, vivia à beira da miséria. Obrigada pela circunstância do momento a percorrer longas distâncias a pé em busca de trabalho e alimento. Ele, com dez anos, o mais velho dos filhos, sonhava em ser professor. Lembrava-se das aulas da professora de História, tinha saudade dos colegas de sala que teve que deixar antes do período letivo encerrar. Aquilo tudo era novo para ele, sabia que tinha passado por muitas dificuldades, mas aquele momento não era favorável a realização do seu sonho; não era possível estudar, posto que as necessidades básicas à sobrevivência falavam mais alto. Algumas vezes ele sentia vontade de chorar, lembrava-se das brincadeiras com os amigos. De vez em quando suas lembranças eram cortadas pela sensação de fome. Tudo era escasso, o alimento era pouco, não era possível cevar-se, posto que tinha que ser divido com os demais. Um desalento que só passava um pouco quando o seu cachorrinho, companheiro de todas as horas, cruzava por entre suas pernas o convidando para brincar. 

De repente, ele escuta uma voz ao longe e sente um toque em sua mão, era um dos seus alunos, perguntando sobre qual é a página do livro em que estavam os exercícios nos quais iria responder. De pronto, Sebastião Silva, professor há 15 anos naquela escola no subúrbio paulistano, retoma as instruções diante de uma sala de aula composta por 30 alunos: “Psiu! Vamos lá pessoal, vamos nos concentrar nos exercícios da página 70, quero que todos leiam o texto que antecede os exercícios, e logo em seguida, responda-os”. A turma volta-se para seus livros, em movimento uníssono das folhas, das quais os jovens folheiam para chegar ao ponto demarcado, no cumprimento das instruções do professor. O texto trazia como ponto de foco o assunto sobre a formação de consolidação da República e suas crises. 

 Já consciente do momento presente, o professor Sebastião pega seu material e faz anotações dos tópicos a serem estudados para avaliação. De momento a momento o professor certifica-se de que seus alunos estão empenhados em pesquisar e responder as questões. Em uma destas certificações ele volta ao devaneio sobre a sua vida. 

Olhando fixamente para aqueles jovens, alguns conversando, outros compenetrados na atividade, ele sente que o sonho que tinha quando criança, em ser professor, foi realizado. Demorou, foi muito sofrido, mas cumpriu a meta. Embora a remuneração não seja o suficiente, vive apertado com as contas, devendo a mercearia e a farmácia, vive com sua esposa e mais dois filhos em casa alugada. Mesmo com dificuldade econômica viaja ao Sertão do Ceará a cada dois anos para visitar a sua mãe, viúva e com noventa e cinco anos de idade, que mora com a sua irmão, hoje casada e com três filhos, empregada em uma loja de vendas de roupas. 

Anos anteriores Sebastião buscou melhorias para sua profissão, tentou diversos concursos para professor universitário, porém não conseguia aprovação no cargo. Faltava-lhe tempo para estudar, a concorrência era sempre elevada e, embora passasse no ponto de corte das provas, ficava muito atrás dos demais concorrentes. Hoje, já na terceira idade, percebe que suas esperanças a um cargo de professor universitário já encolheram muito, não é possível alimentar sonhos muito além, tudo está muito próximo e muito pequeno. Embora este sentimento o aflija constantemente, principalmente quando ele compara com os sonhos de muitos daqueles jovens, alguns de famílias de classe média, em um período de época onde tudo funcional na sua normalidade, não se deixou entrar em parafusos. A vida segue...

Por Lindeberg Ventura

sábado, 19 de maio de 2018

As facetas dos usuários do Facebook

As facetas dos usuários do Facebook.

É engraçado... no Facebook há pessoas, nas quais eu me incluo, de tudo quanto é raça, cor e preferências sexuais, loucos de jogar pedra, rezadeiras, curandeiras, recalcadas, filósofas “desfilosofadas”, “besteirósofas” e muitos outros bilhões. São como ervas daninhas, crescem e se espalham. 

Veja aqui uma pequena parte destes bilhões: 

Há os injustiçados, os justiçados, e os desajustados. 

Há os que se expressa através da escrita usando palavras chulas, desproporcional ao ambiente. 

Há os que se revoltam e, às vezes, ou na maioria das vezes, não dizem nada do que queriam dizer quando escrevem. 

Há os que pensam que todo mundo acredita na sua religião, e empurram de goela adentro frase de efeito que não faz efeito algum para aquele quem não acredita. 

Há o falso poeta, falso escritor, ou mesmo o suposto inteligente que vive colocando frases de outras pessoas, e, nem sequer registra o nome do real idealizador da frase. 

Há o “estudante” que sempre diz que vai estudar, porém, gasta tempo precioso e só depois, muito depois, realiza o que falou (ou não). Alguns embromam na certeza de que a vida em rede (deitado ou não) irá trazer aqueles dias tão sonhados. 

Há também aquelas pessoas puritanas que se revelam (às vezes só na rede), os revelados que se aproveitam da ocasião para se “soltarem” ainda mais e fazerem valer a voz da mudança de atitude, até de sexo, se fosse possível. 

Há o santo, que só vive depositando frases bíblicas e achando que está pregando. Se for verificar a vida pregressa desta criatura, é bem provável que ele (ou ela) não segue, e muitas vezes, nem tenta seguir o que oferece para os outros. 

Há os que se desesperam e transformam o Facebook em psicólogo e analista, que soltam seus problemas aleatórios e que muitos nem se quer irão compartilhar seu sofrimento. Aliás, o povo, em sua maioria, não gosta de quem só fala em sofrimento. 

Há o revelador, que nos registros fotográficos, paralisa o tempo: acordei agora, vou trabalhar, estou saindo, vou à praia, cheguei de viagem, sentei na cadeira, estou a mesa, apertei uma tecla, estou em tal lugar, estou com minha namorada (ou namorado), vou fazer a prova, cheguei da festa etc., etc., etc., etc. 

Há o revoltado sem causa, que vive denunciando os males dos movimentos sociais (greve, manifestações populares por uma ideologia, atividades em prol do meio ambiente) e que nem se quer se mexe para fazer valer seus ideais. É a tal da crítica pela crítica, vazia, sem nexo e sem capacidade de transformação. 

Há o de “cabeça bem feita” que respeita as frases dos outros (coloca as autorias); não empurra suas crenças para os que não a pedem; não escreve palavras chulas (pois a inteligência não é pra todos, mas só para quem o pratica); compartilha seu sofrimento com pessoas que são apropriadas; escrevem (com alguns erros, é claro, já que ninguém sabe tudo, mas que, pelo menos, estuda um pouco para não escrever e/ou postar algo destoante da boa convivência) e ainda tem o cuidado para não escrever algo que venha a se comprometer, ou que tenha, também, a intenção de dizer o que realmente quis dizer. 

Há aquelas que, seja pelo medo da solidão, ou provavelmente para chamar a atenção, ou por quererem transmutar seus desejos no estilo da imperatriz-consorte Messalina, ou simplesmente pelas vontades em serem desejadas (ou invejadas) por outro ou pela outra, ou ainda, em outro caso top secret, por algum desejo oculto (à revelia dos sintomas bloqueados por acomodação social), sabe lá quais desejos teriam o poder de sublimar fortuitas vontades, vestem micro shorts, tiras (chamadas de saias) e põe a mostra seus corpaços (ou corpos raquíticos) e registram as fotos para alguém comentar, curtir e/ou compartilhar; 

Da mesma forma, em sentido oposto, mas na mesma direção, os “boys”, “bombados”, sabe-se lá a que custo, mostram seus bíceps, tríceps, coxas etc., orgulhosos de postarem amostras grátis dos corpos malhados, alguns dos quais, fisiculturistas amadores cujos os corpos, desnivelados, destoados dos padrões de saúde, supostos reis da cocada preta, comungam da mesma ânsia da propagação da imagem em rede social. Já para os praticantes mortais do dia a dia, aqueles que vão para gozar da qualidade de vida imediata, não guarda na carteira a foto de Schwarzenegger, ficam à mercê das vontades destes robustos homens na espera de usar os maquinários, pois estes indivíduos encorpados fazem sessões de fotos para seus álbuns para que as ninfetas ou “ninfetos” curtam. 

A variedade de pensamentos e atitudes são grandes, e talvez tenha sido o porquê, além de tantas outras forma de expressão, que o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, disse em entrevista: “Se por um lado, os brasileiros fazem o Facebook crescer, por outro estragam tudo”. Esta frase é uma crítica a mau comportamento dos brasileiros na internet. Da mesma forma como se observou no antigo Orkut, os spam e imagens animadas, frases religiosas, recados animados cheios de luzes e enfeites. Vale salientar, nos dias de hoje, que Zuckerberg, contribuiu também para estragar o processo eleitoral dos EUA. Possibilitou, através da empresa Cambridge Analytic, vazamento de dados de 87 milhões de usuários da rede social em favor do então presidente Trump. Desta forma, o cara é muito mais perigoso do que as mentes férteis dos brasileiros. 

terça-feira, 13 de março de 2018

Filosofia para combater o "nem tchuiu"



NÃO ESTRANHO, hoje em dia, depois de muito matutar por alguns anos, quando falo para adolescentes sobre a prática das boas ações em busca de uma boa vida, trilhar os caminhos do bom comportamento, alcançar momento de felicidade (sensação light da existência), e estes adolescentes parecem não se interessarem por isto.

Tempos atrás, quando tentava convencê-los destes caminhos sentia-se angustiado, o que falasse parecia não dizer nada. Era como “falar com as pedras”. Lembrava-me daquele provérbio português: "Entra-lhe por um ouvido e sai pelo outro". 

As experiências da vida vão dando mais condições para não "perder a cabeça" com pouca coisa. Aprende-se no dia a dia, nos dissabores do momento. Aprende-se, também, com nossos ancestrais. Como professor, tenho o dever de ensinar; mas antes tenho, ainda mais, o dever de aprender. 

Pois então, dois ancestrais ajudaram-me no conhecimento de algumas estratégias sobre as condições do caminhar (pela vida), observando as boas ações. Estou falando de Platão e Aristóteles, fiz pouquíssimas leituras sobre suas obras. Todavia, o que li é possível aplicar algumas delas na minha profissão, outras acho que não encaixam muito bem, por vários motivos. Destaco aqui uma dica interessante, não aplicável na minha profissão, visto que a idade dos meus alunos estão entre, um pouco mais ou um pouco menos, 15-20 anos. 

Estes filósofos só ensinavam a seus alunos sobre "ética" e "felicidade" quando estes já tinham 30 anos. Julgavam que seus alunos deveriam ter maturidade suficiente para entender o conceito, pois haviam adquiridos experiências suficientes. Ou seja, até antes desta idade os alunos não deveriam ter o contato teórico mais profundo sobre isto. Logo, para os dois filósofos, a experiência de vida é pré-requisito, condição CINE QUA NUM, para que possam absorver as informações conceituais. 

Em seus escritos afirmavam que a juventude é afoita, faminta e estabanada por saber ou, muitas vezes, indolente. Portanto, os jovens não estariam preparados para entender a coragem, a justiça e a prudência sem uma formação teórica adequada e um leque maior de experiência. 

Posto isto, ficará mais fácil enfrentar, sem “entrar em parafuso”, a sensação de menosprezo quando você for falar sobre o bom caminho para os adolescentes e eles nem tchuiu pra você. 

sábado, 25 de novembro de 2017

Celina Guimarães Viana - o primeiro voto feminino do RN

HOJE FAZ 90 ANOS anos do primeiro voto feminino no Rio Grande do Norte. A professora Celina Guimarães Viana, esposa do professor Eliseu Viana, fez seu primeiro registro histórico.

Abaixo, um pouco da história sobre o sufrágio contada pelo historiador Geraldo Maia. Logo em seguida (e aqui ao lado), algumas imagens (registradas em celular) de fotos obtidas no museu municipal da cidade (Museu Municipal Lauro da Escóssia), onde fiz os devidos registros.



Por GERALDO MAIA
(professor, historiador e pesquisador)

O desejo das mulheres brasileiras de participar da vida política do país é muito antigo. Alguns preceitos do Código Civil Brasileiro de 1916, no entanto, sacramentavam a inferioridade da mulher casada em relação ao marido. A nova ordem jurídica incorporava e legalizava o modelo que concebia a mulher como dependente do homem. A esposa foi declarada relativamente incapaz do exercício de determinados atos civis, limitações só comparáveis às que eram impostas aos menores e aos índios.

O mundo privado discriminava as funções conjugais, mas o direito da mulher ao trabalho iria depender da autorização de seu marido ou, em certos casos, de uma decisão judicial.

Com o desenvolvimento industrial e urbano, o acesso a uma melhor escolaridade, o avanço do feminismo e as frequentes reivindicações das mulheres por maiores oportunidades acabaram por abrir, fora do lar, algumas novas profissões para as brasileiras. Mas a aspiração da mulher era limitada. Precisava da autorização do seu marido para desempenhar qualquer profissão fora do lar. Mesmo assim, a inclusão da mulher na produção criou as origens de sua luta pela libertação, o que possibilitava uma independência econômica que quebraria os laços da dominação do homem e da família.

De fato, desde o início, essa questão provocava discussões e debates, fazendo emergir posições contraditórias, inclusive quando o tema abordado era o sufrágio feminino. Era motivo de zombaria ou utopia só o fato de imaginar mulheres adquirindo por completo a sua cidadania.

No final da década de 1920, as mulheres aspiravam o direito político e objetivavam a conquista de sua cidadania através da participação política. O primeiro dos projetos que visava dar direito de voto à mulher foi de Maurício de Lacerda (1917), depois Justo Chermont (1920), representante do estado do Pará, e em seguida Moniz Sodré (1925). Todos eles redundaram no fracasso devido à timidez dos políticos.

Contudo, o voto se impôs e aconteceu no Rio Grande do Norte, precisamente na cidade de Mossoró. Em 1926, José Augusto, então governador do Rio Grande do Norte, promoveu a reforma da Constituição do Estado, tentando adaptá-la à Constituição Federal. Elaborou nesse mesmo ano uma nova Constituição política pelo Congresso Estadual Constituinte.

E, assim, feita a revisão da Constituição do Rio Grande do Norte, por exigência do senador Juvenal Lamartine, junto ao governador José Augusto, foi nela incluído um dispositivo “consagrando a igualdade de direitos dos cidadãos de ambos os sexos”. Nas suas disposições transitórias, lá estava o artigo 77, que dizia: - “No Rio Grande do Norte, poderão votar e ser votados sem distinção de sexos, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas por esta lei.” Esse dispositivo foi apresentado pelo deputado e líder do governo, o mossoroense Adauto Câmara, por solicitação de Juvenal Lamartine.

Em 25 de outubro de 1927, quando da aprovação da lei 660, ficou clara a permissão de direitos dados à mulher de interferir na política norte-rio-grandense.

Foi com base nessa lei que, a 25 de novembro do mesmo ano, a professora Celina Guimarães Viana requereu sua inclusão no alistamento eleitoral. Seu requerimento preencheu todas as exigências da lei e nesse mesmo dia, verificados os documentos que o acompanhavam, exarou o juiz Israel Ferreira Nunes, então juiz eleitoral de Mossoró, em substituição ao dr. Eufrásio de Oliveira, seu jurídico despacho, mandando incluir o nome da requerente na lista geral de eleitores. Esse despacho, hoje um documento de imenso valor histórico, encontra-se no Museu Histórico “Lauro da Escóssia”, em Mossoró.

Decidido o seu caso, Celina enviou um telegrama de apelo ao presidente do Senado Federal, para que as compatriotas obtivessem o mesmo direito: “Peço nome mulher brasileira seja aprovado projeto instituindo voto feminino amparando seus direitos políticos reconhecidos Constituição Federal.”

Mesmo não sendo um feminista, José Augusto ingressou na história do desse movimento, tornando-se o primeiro a receber o voto feminino no Brasil com satisfação, o que não aconteceu com a Comissão de Poderes do Senado, que excluiu dos 10.612 votos considerados válidos, 15 votos femininos dados a José Augusto para senador da República.

José Augusto foi candidato a senador da República na vaga aberta pela renúncia de Juvenal Lamartine de Faria, que saiu candidato a governador do Estado. A não aceitação dos votos das mulheres norte-rio-grandense nesse pleito deveu-se ao fato da lei 660 ter abrangência apenas no âmbito do Rio Grande do Norte, sendo o voto feminino válido apenas para eleições no estado.

Esse fato, de maneira alguma, diminui o mérito de d. Celina Guimarães Viana. Afinal, só 5 anos depois, em 24 de fevereiro de 1932, é que as mulheres dos demais estados brasileiros viriam a conquistar esse direito. E nem eram todas as mulheres que podiam votar; somente as casadas (com permissão dos maridos), as viúvas e as solteiras que tivessem seu próprio dinheiro. Em 1934, após grande pressão popular, o presidente Getúlio Vargas tirou essas restrições do Código Eleitoral.

O PRIMEIRO VOTO

A atitude de Celina Guimarães incentivou outras mulheres de Mossoró e do Rio Grande do Norte a requer o direito de votar. E todos os pedidos feitos, mediante comprovação de documentos exigidos por lei, foram deferidos pelo juiz eleitoral. Tanto que quando Celina foi votar, pela primeira vez, em 5 de abril de 1928, teve a companhia das senhoras Beatriz Leite Morais e d. Elisa da Rocha Gurgel, que também obtiveram o registro eleitoral. Nas eleições daquele dia, o dr. José Augusto Bezerra de Medeiros concorria à vaga aberta no Senado por Juvenal Lamartine, que havia sido eleito para o Governo do Estado do Rio Grande do Norte.

No momento de exercer o voto, no antigo prédio onde funciona a Biblioteca Municipal Ney Pontes, as três eleitoras foram recepcionadas na mesa eleitoral pelos senhores José Ribeiro Dantas, Augusto da Escóssia, Bonifácio Queiroz, além da presença do deputado federal Rafael Fernandes Gurjão e do dr. João Marcelino de Oliveira, delegados de partido.


Imagens de fotos registradas via celular (Museu Municipal Lauro da Escóssia)



Voto